segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Realizando nossos desejos - superando o mecanismo da falsa liberdade que escraviza

Imagem: Illusory Freedom, de Roma Kalani,
Mumbai, India, 2013. Thank you Roma!
Quem nunca se interessou pelo estudo da Lei da Atração que atire a primeira pedra! E quem nunca distorceu um ensinamento simples e puro para se adequar às necessidades de seu ego de manter-se protegido e imutável em uma zona de conforto ou já é um Mestre Ascenso ou é um bebê ainda.

A busca pela felicidade na civilização atual é recheada de atalhos perigosos, uns prometem satisfação instantânea sem avisar da insatisfação que virá logo a seguir, já outros mais conscientes também não estão isentos das armadilhas que nosso próprio ego nos faz cair. Nessas, até a espiritualidade e consciência podem ser forjadas por uma imagem mental do que a realização representa para nós, nos desviando da pureza da Presença que é o único caminho a seguir.

Houve um tempo quando, estimulado por realizar meu sonho de vida, andava tão focado em minhas metas que vivia em um senso de dever totalmente fora de minha Presença, que me tirava a graça de estar aqui e viver o que quer que fosse diferente daquilo que eu perseguia. Com meditações constantes e o estudo da espiritualidade sempre presente, tinha a impressão de estar correto em minhas ações. Porém, persistindo em certos caminhos o mau humor me dominou. Havia uma tensão sempre presente que me impedia de relaxar em meu coração e aproveitar a vida, apenas pelas coisas não serem como eu as tinha idealizado. Cheguei ao extremo de me irritar e não atender ao telefone quando espontaneamente tocava, pressentindo que não acrescentaria nada ao que tinha escolhido conquistar. É o cúmulo da limitação mental autoinfringida, fechar-me ao que acreditava que não se relacionava com meus objetivos. É o oposto da consciência que nada julga e tudo aceita, testemunhando calada aquilo que É. 

Dei graças à minha namorada que me despertou disso: me dizendo o que eu precisava ouvir, me trouxe à realidade de que eu caí numa armadilha do ego e vivia a infelicidade de não ter o que queria conquistar. Mostrou-me que há tempos eu já criava a partir minha essência, apenas ainda não havia abandonado alguns velhos hábitos e limitações. Estava inconscientemente criando aquele momento desagradável porque queria, não por falta de alternativas. Convenci-me. Dormi então tranquilo, contente e satisfeito. O momento era perfeito, a alegria estava em meu lar, na consciência de tudo de bom que já realizei e nas infinitas possibilidades que o universo sempre tem a nos apresentar.

Porém no dia seguinte acordei novamente estranho. “Por que não estou bem como fiquei ontem”? Alguma contrariedade no café da manhã e já me estressei. A irritação já estava presente internamente e agora se aproveitava de situações externas para ser validada, porém com grande esforço ainda pude percebê-la de fora e observá-la. "O velho Rodrigo ainda está aqui", pensei. Tomei o café que já não saiu como eu queria. "O que me deixa tão irritado? Achei que tinha me curado disso, por que isso ainda me acompanha?" Perguntava às partes superiores de meu ser.

E foi então que recebi uma “dica” de alguém, aquilo serviu como gatilho e uma grande “tempestade em copo d’água” se precipitou. Me senti ali o fantoche, o que só trabalha e se conforma enquanto os outros dizem como minha vida tem que ser. Percebi na hora que este sentimento ruim de me sentir obrigado a seguir o que dizem era algo de outras encarnações e que me acompanha nesta vida desde pequeno, assim como a raiva que o sucede. Percebendo que se tratava de uma cura, parei então para respirar, silenciei a minha mente para não criar mais bobagens e me observei. "O que está acontecendo? O que está me causando tanto mal estar?" E foi então que percebi o local de origem do mal estar, a região interna perto do umbigo subindo do básico, “um segundo chakra inflamado”, brinquei. Foquei nesta sensação e compreendi que eram as raízes emocionais de um velho mecanismo mental. Apelidei-o de "a falsa liberdade que escraviza". Ele existe há eras na experiência humana.

É um mecanismo do ego e seu correspondente aspecto de personalidade que necessita escolher e decidir cada aspecto de sua vida como forma de se sentir no poder, no comando de seu universo, simulando assim uma sensação de liberdade conforme acreditada nos dias de hoje. Quando ele não está escolhendo aquilo que se apresenta a ele naquele momento, está rejeitando a vida, causando infelicidade, insatisfação, resistência e mal estar, para que assim perpetuemos na busca de algo e o alimentemos com mais e mais desejos, garantindo a sua existência. “Quero isso, isso e aquilo”, “quando tiver tal coisa serei feliz”, “aquilo me fará realizado”, “este é meu ideal de vida”, ou "a vida é uma droga, não consigo nada que quero", "sou um escravo do sistema", "vivo para satisfazer os outros", “nada é como eu gostaria” são pensamentos comuns a quem vive preso neste mecanismo. Ele é totalmente contra a aceitação e a entrega. Esta liberdade simulada está associada ao ato de escolher, não a aceitação incondicional do momento presente que traria paz e bem estar em qualquer situação, permitindo assim que estejamos abertos, em equilíbrio e harmonia em qualquer momento e condição que a vida nos traz. Esta é a verdadeira liberdade, não ser escravo de nenhum mecanismo ou julgamentos. É isso que baixa nossas barreiras e nos resgata à Unidade com tudo o que há.

O sofrimento vem de querer o que não se tem e é potencializado quando lutamos para conseguir aquilo, quando cheios de esperança nos frustramos. O próprio querer associado à condição de se ter, ser ou realizar algo para ser feliz já é resultado de uma carência, de uma programação ilusória de necessidade e falta.

Assim, para aquele que se acredita espiritualizado, este mecanismo disfarça-se numa máscara de aceitação, faz listas de gratidão para conseguir aturar aquilo que está lá mas que ele não escolheu, tentando assim transcender a "sisudice" daquele que busca incessantemente realizar seus objetivos e não consegue mais aguentar o aqui e agora que nada se assemelha à imagem mental inventada, tão perto e ao mesmo tempo tão distante de sua meta final, de sua conquista. Reforça então o foco no que já tem e está lá, inventando uma gratidão exaltada para amenizar a dor de não possuir ou atingir mais e mais aquilo que almeja, infinitamente.

Digo que o ego é sorrateiro e assim o é mesmo no caminho da cura. O ego espiritual no controle cria versões mentais da consciência que almeja. Dessa forma, buscando então a sentir gratidão unicamente para conseguir seus objetivos, cria mentalmente a carência de algo que já tem, focando no que já se possui e dizendo para si que aquilo é o que ele agora quer. “Veja, sou feliz porque tenho isso”, afirma em seu inconsciente. Assim enganamos nossos mecanismos baseados em carências e limitações, perpetuando no vício mental que todo mecanismo gera. É como emagrecer substituindo alimentos muito calóricos por sua versão light, enquanto o mau hábito do glutonismo e suas respectivas causas como feridas, moldes, programações e aspectos de personalidade continuam lá. Camuflamos então o mecanismo, mas continuamos escravos de seus desejos e sede de poder. Ser grato pelo que já temos é o mesmo que aceitação e contentamento, não é exaltação.

Esta dor ou sofrimento, no entanto pode ser o caminho para nossa libertação. Enquanto não paramos para senti-la e compreender sua causa e como a criamos, não nos desligamos dos mecanismos que nos escravizam. O simples fato de percebermos o hábito já é a sua cura. A luz ou insight que buscamos ocorre quando em humildade aceitamos a limitação, abraçamos o sofrimento e assumimos a responsabilidade por ele. Insistir na realização externa só nos mantém presos neste ciclo de perdas e frustrações, cujo propósito é exatamente finalmente abandonarmos o que nos faz sofrer e voltarmos nossa atenção ao nosso interior, o caminho de volta ao Lar.

A aceitação do momento presente e o desprendimento dos próprios pensamentos torturantes que nos impelem a ser, ter ou fazer algo diferente do simples aproveitar consciente, do "estar aqui", já é o próprio ser, sendo. Estar presente não requer escolhas, a Presença é o ato natural da consciência, ela não é manifestada exteriormente, é apenas o ser. A partir daí quando não há mais dor, não há mais remédio a se buscar. O sofrimento é sinal de que estamos criando uma necessidade artificial dentro de nós, algo que sem sua existência a paz já prevaleceria. 

Existe uma inteligência superior em cada ser que nos dirige, outra mais elevada ainda que nos Unifica e a tudo orquestra, sincroniza... Quando estamos presentes, entregues, servindo e em paz, podemos dizer que estamos alinhados com o propósito de nossa alma. Neste ponto tudo o que o universo nos apresenta faz parte de nosso caminho; a única escolha necessária então, ainda que rara, é resistir ou permitir. Digo rara porque, afinal, quem é que conscientemente escolheria resistir? Resistência é igual à inconsciência.

Sobre atrair o que desejamos, é nosso direito Divino para esta experiência vivermos a vida a partir de nossas escolhas. Nossa vontade manifesta-se a partir de diversos pontos ou frequências vibratórias de nosso ser, podemos chamar isso de níveis de consciência. Existe então o desejo da alma assim como existem os infinitos desejos dos inúmeros aspectos de nossa personalidade embasados nos diversos níveis de consciência. Todos fazem parte do nosso caminho e todos de uma maneira ou de outra nos levarão à consciência de quem verdadeiramente somos, quer sejam satisfeitos ou não. Seja em uma só encarnação ou em inúmeras, só nossa alma sabe o caminho que traçou para si e o quanto de tempo precisará em cada experiência. É a alma quem traça o caminho Maior, as personalidades só podem aceitar ou resistir e fazem isso através do desejo.

Assim, existem pessoas nos mais variados níveis de consciência encarnadas neste momento, cada uma com seus pontos de vista, suas verdades e seus objetivos de vida validando suas crenças em experiências, trilhando o caminho da alma e perseguindo os desejos da personalidade também. Inclusive podemos atuar em cada momento a partir de um nível, já que ainda temos assuntos e aspectos de personalidade em diversas frequências para curar. Por esta razão, no mesmo momento em que são criados, muitos desejos já têm como destino a vitória e satisfação e outros certamente acabarão em frustração e fracasso, todos como parte do aprendizado de cada um. Não é sinal de vitória conquistar tudo o que se deseja, assim como não é sinal de evolução viver na negação da realização das próprias vontades. Poder ter tudo ou ter nada podem ser também uma fase de um aprendizado, uma experiência que uma alma quer. Se este for o caso, não importa o que a personalidade almeje, a vontade da alma prevalecerá. É por isso que existem pessoas que nascem já com a vida ganha, outras que nascem na miséria, tudo experiência de alma. Não há regra para isso e, neste sentido, dizer que algo é certo ou errado é basear-se em um nível muito baixo de consciência, onde os dogmas e a ignorância das dimensões superiores de nosso próprio ser ainda se fazem presentes traduzidos como obrigações para se chegar a algum lugar. Na realidade de nosso Eu Superior, somos sempre um com tudo o que há, não há riqueza maior que esta.

No geral, se o desejo não for destrutivo para nós ou para os outros, não invade a liberdade de ninguém nem viola as leis universais, não há porque não se realizar. O desejo é um forte ponto de atração magnética que, quando livre de programações adversas e sustentado com um mental puro e receptivo, permite que o mundo se transforme. Assim, o universo atende à nossa solicitação. O mundo que vivemos é nossa criação e todos temos o direito de transformá-lo, não há lei ou punição Divina contra isso. Lembrando apenas que, do ponto de vista de um mental puro, quanto mais consciente formos, menos necessidade de alteração teremos: a perfeição já será reconhecida em toda a Criação. 

Outro ponto a observar é que aquilo que criamos é responsabilidade espiritual de cada um e, como observamos neste momento, a destruição que causamos ao planeta é o fruto dos desejos inconscientes de cada um de nós individualmente e de todos como civilização. Sejamos então conscientes e, ao invés de incentivarmos os desejos, trabalhemos com nossa intenção. A intenção pura que parte do coração trabalha com as partes superiores de nosso ser e em sintonia com o propósito de nossa alma, trazendo mais facilmente à nossa realidade as curas, alinhamentos e condições necessárias para realizá-la. É através da intenção de nosso coração que expressamos a criatividade, a sagrada e exuberante “atividade de criar”!

Vale lembrar também que quanto maior for a diferença entre nossa condição atual e aquela que queremos chegar, maior será a transformação vibratória e consciencial que teremos que passar. Inventar sentimentos como técnica de atrair coisas não funcionará, apenas consciência, foco e um estado constante de aceitação sem julgamento nos ajudarão. 

Insistam e perseverem com a certeza de que conseguirão, mas peguemos leve, lembremos sempre de que tudo e todos aqui somos sagrados e que não temos que ir a lugar nenhum. O que importa é o amor e paz no coração.

Namastê!

Rodrigo Durante
www.rodrigodurante.com.br