quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Amar é não julgar

O ego é o obsessor da alma. Ele vive uma realidade que é só dele, sempre pronto a dominar a situação, a se satisfazer utilizando algo externo, a distorcer a verdade para se validar e é claro, acreditando-se o centro do mundo, a determinar como as coisas deveriam ser. Com seus julgamentos e interpretações, o ego tornou-se uma entidade pensante que assumiu o centro de nossa consciência, nos afastando do ser. “Penso logo existo”, diz ele... E ainda completa: “e sou eu quem mando em tudo isso aqui”.

Estava prestando atenção em minha mente, em como ela não aceita a realidade. A realidade silenciosa do momento presente. Através da mente, nosso ego sempre apresenta uma história junto, pensamentos, ruídos que distorcem a simplicidade do agora. Pensamentos são somente ideias, distorções da verdade. O momento presente só pode ser percebido sensorialmente, qualquer análise já não é real, é uma interpretação do ego baseada em seu senso de realidade, a história que construiu sobre si mesmo, os outros e a vida. 

Sem perceber, quantas pessoas estamos prendendo com este comportamento? Quantos registros e julgamentos do nosso passado trazemos em nossa bagagem para este momento? São tantas memórias, expectativas, medos e precauções que quando interagimos com alguém, não é nosso ser que está ali, assim como não estamos permitindo que aquela pessoa seja ela mesma. Não estamos abertos para aceitar o momento em sua totalidade, livre de nossos controles.

Por exemplo, seu chefe se aproxima, você já pensa alguma coisa. Nossa mãe nos liga, já pensamos outra coisa. Para um motoqueiro ao nosso lado no semáforo, já pensamos outra coisa. Ouvimos alguma notícia ruim e já estamos lá pensando novamente... Assim o ego vai apresentando a sua versão da realidade baseada em seus registros, crenças, programações, catalogações etc. Dessa forma, quando vamos interagir com alguém é o ego que está lá se relacionando e não o ser. O ego usa a mente com toda a sua bagagem para interpretar cada momento de nossa vida e gerar reações baseadas em sua história.

O momento presente é muito simples, não há nada por traz dele, nenhum motivo ou justificativa, nenhum passado ou futuro. Quando aceitamos o momento plenamente, ele se dissolve, não havendo mais a necessidade de revivermos certas situações. Não precisamos carregar tantos pesos, tantos registros, tantas necessidades... A energia que usamos para sustentar a versão da realidade criada por nosso ego é tanta que chega a nos tirar o prazer de viver. O desgaste físico, mental e emocional é contínuo, não importa se estamos felizes ou tristes, o cansaço causado pela vida mental está sempre lá.

Mas por que então damos tanta atenção para os pontos de vista do nosso ego? Por que nos confundimos tanto com ele? Simples, porque ele nos compra com uma promessa de felicidade e de evitar sofrimentos. Claro que enquanto inconscientes do nosso ser acreditamos nesta promessa, sem percebermos que tanto esta felicidade quanto os sofrimentos são gerados por nós mesmos. E estamos há tanto tempo vivendo desta forma que já esquecemos como é a plenitude do ser. A felicidade do ego é sempre condicionada e dependente de fatores externos, de algo específico acontecer, de julgamentos e interpretações de acordo com suas expectativas, com o que não o ameaça ou o tira de sua zona de conforto. Assim, passamos o tempo todo presos dentro da mente e perdemos a noção do que é real. 

É impossível não ter mente, ou mesmo personalidade. A personalidade foi criada para interagirmos uns com os outros, cada um expressando o aspecto do Criador que representa. Porém não podemos nos confundir com ela, ou deixar o ego usá-la para mandar em nossas vidas. Sendo parte do que somos, não podemos então rejeitar estes aspectos de nossa expressão. A saída então é a consciência, a compreensão.

Quanto mais julgamentos e considerações nosso ego carrega, menos espaço sobra para o amor. Não estou falando do amor humano, sempre dependente de trocas, condições e preenchimentos, mas do amor universal, a aceitação incondicional de tudo e de todos, assim como de nós mesmos. Amando desta forma e incessantemente, todo julgamento deixa de existir. 

É preciso no entanto treinar esta postura amorosa, exercitar este músculo da aceitação tão atrofiado que está. Alguém se aproximou de você, não julgue, apenas ame o ser que está ali! Alguém deu uma opinião contrária à sua, ame o ser que está ali! Alguém está bravo com você? Ame! Alguém fez mal ao outro? Ame também... Além de inundar a nós mesmos, o outro e o mundo com a energia mais deliciosa que existe, o amor-aceitação nos tira do julgamento e permite que continuemos sempre presentes. Todas as barreiras e separações que construímos se desintegram na vibração do amor. Não existe infelicidade onde existe amor. Assim, se em algum momento percebermos que estamos com raiva, reagindo ou de alguma forma julgando, amemos a nós mesmos, pois somos nós que estamos precisando de nossa própria aceitação.

O amor-aceitação substitui o julgamento-separação. Aos poucos, toda a bagagem que nosso ego acumulou como sua história e como os pré-requisitos para sua existência vai se dissolvendo, criando novamente o espaço para que apenas o ser esteja ali. 

Pratiquemos o amor agora e sempre!

Namastê!

Rodrigo Durante
www.rodrigodurante.com.br